A angústia da mudança e a perda da zona de conforto
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Na semana passada estava procurando um email antigo e acabei achando os emails da época em que estávamos nos Estados Unidos, tentando viver o sonho americano.
Como já contei aqui, em 2005 fui com minha esposa e minha filha mais velha, na época com 3 anos, para Fort Lauderdale tentar arrumar um emprego na minha área, com um empregador que me desse um visto de trabalho (H1B) e ficar alguns anos por lá. Para isso compramos passagens com volta marcada para 2 meses e levamos grana pra ficar por lá esse tempo, “aportados” na casa do Alex.
Lendo os emails da época comecei a sentir novamente toda a angústia da espera por telefonemas com ofertas de empregos, dos telefonemas que terminavam quando eu citava que precisaria do visto de trabalho e dos milhares de currículos que enviava diariamente através dos sites de empregos. Aliado a isso o desespero por estarmos na casa de outra família, sempre com a sensação de estarmos atrapalhando, apesar do esforço dos nossos anfitriões em nos mostrar o contrário.
E toda essa angústia revivida me fez pensar em escrever um pouco sobre isso.
Assim como muitos que nos lêem, eu sempre quis morar nos Estados Unidos (e ainda quero), e quando decidimos ir para lá, parecia que tudo caminhava bem. E realmente, analisando hoje, as coisas correram relativamente bem. Porém, por mais estranho que isso possa parecer, na época parecia que tudo estava dando errado, e após os primeiros 20 ou 30 dias, podíamos jurar que estávamos lá à mais de 6 meses.
E essa é uma sensação pra lá de estranha. Quando a gente saiu daqui, falamos aos nossos parentes que estaríamos relativamente próximos, que as passagens eram mais baratas de lá para cá, que falaríamos sempre ao telefone, etc e tal.
Porém, chegar em um país diferente significa encontrar costumes diferentes, procedimentos diferentes, um idioma diferente (o que inclui gírias que você não conhece e brincadeiras que você não entende), e principalmente significa que seu cérebro gravará praticamente tudo o que você verá, ouvirá e sentirá, porque tudo é novo. E cada dia que passa parece uma semana inteira, pela quantidade absurda de informação absorvida e de esforço gasto tentando entender tudo o que viu e ouviu ao longo do dia.
E foi exatamente o que aconteceu conosco. Cerca de quinze dias depois parecia que já estávamos lá à uma eternidade. Cada email trocado com meus pais ou meus irmãos trazia no conteúdo a impressão de que não nos víamos à meses, talvez anos.
Conforme os dias iam passando, aliava-se ao sentimento de saudade a angústia pelas ofertas de emprego que não vingavam e pelos passeios por lojas e supermercados, respondendo aos pedidos da Isabela sempre com a mesma frase: “Quando o papai arrumar um emprego a gente compra isso, tá?”.
Por fim, quando já estava com um emprego arrumado e com a promessa de visto de trabalho, nossa mente já não pensava mais em alugar uma casa e começar uma nova vida, e sim no quanto demoraríamos para ter nossa segunda filha, quando visitaríamos o Brasil novamente, quando conheceríamos nosso sobrinho, que havia nascido quando estávamos lá, e tudo quanto é pensamento negativo e contraditório.
De toda aquela experiência “confusa”, saíram algumas conclusões, que quero dividir aqui:
- Não deixe nada desamarrado. Amarre tudo que puder, isso é, prepare-se, praticando o idioma, entendendo sobre a legislação do país, se preparando para o exame da carta de motorista, fazendo contatos com empresas e possíveis empregadores, agendando entrevistas e tentando sentir o mercado de trabalho para a sua área;
- Entenda que a distância existe, e que o conhecimento da distância faz com que o seu cérebro crie uma barreira de separação com sua família. Prepare-se para esse processo, para não entrar em depressão;
- Você provavelmente terá problemas em entender determinadas pessoas e determinados sotaques. Não desanime. Peça para repetirem e treine seu entendimento com a TV;
- Você falará errado no começo. Se esforce para corrigir mas não deixe de se comunicar por isso. Um dos problemas dos imigrantes é a vergonha de falar errado, que os faz não falar!
- Prepare-se! De novo, faça tudo o que puder antes de chegar lá: alugue um carro, pegue uma semana de hotel, guarde o máximo que conseguir de grana. Informe-se pela internet e com pessoas que já viveram essa experiência.
Por fim, fica a clara sensação de que o grande problema conosco esteve associado a perda da Zona de Conforto. Sempre reclamamos de São Paulo e dos problemas da cidade. Mas reclamávamos dentro de nossa zona de conforto. Quando perdemos essa zona de conforto entramos em colapso. Então esteja disposto a perder sua Zona de Conforto. Essa é a única maneira de viver novas e intensas experiências.
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April 30th, 2008 at 10:07 am
Oi, achei seu blog por acaso e gostei muito..
Meu irmão mora nos EUA há 9 anos e meio e desde então nunca mais nos vimos, só falamos por telefone e internet..
Lendo esse post entendi um pouco o porquê do sumiço dele às vezes, entendi mais as dificuldades…ele tá lá sozinho, quer dizer, tem amigos, mas nada é como ter a famílai por perto….
Adorei mesmo seu blog, vou favoritar para voltar mais aqui.
May 2nd, 2008 at 11:12 am
Olá Drica, tem um outro post meu sobre esse assunto, depois você dá uma olhadinha nele: A família e as saudades…
Abraços e obrigado pela mensagem
August 13th, 2008 at 2:59 pm
Meu amigo. vou me preparar para perder a zona de conforto realmente devo ficar cerca de 3 meses estudando em fort lauderdale e gostaria de arrumar algum trabalho na minha area lá… qual site vc indica pois trabalho com informatica. abs.
August 13th, 2008 at 4:40 pm
Olá Bira!
Escrevi um post sobre isso, dá uma lida nele: Como trabalhar nos EUA
Abraços e boa sorte!
November 5th, 2008 at 1:16 pm
Oi! Então é tranquilo ficar na casa de amigos por uns 2 meses, dá pra dizer isso na imigração, mesmo entrando com visto de turista? Eles não costumam dificultar pra quem não tem emprego no Brasil na hora de entrar, desconfiando que vc quer ficar por lá, etc?
Obrigada!
November 6th, 2008 at 5:18 am
Olá Carla,
Quando fui para lá e falei que ficaria 2 meses eu dei o endereço de um hotel em Orlando, e disse que ficaria boa parte do tempo nesse hotel e o restante viajando pelo sul da Flórida. O segredo é ficar tranquilo e conversar numa boa.
Abraços,
Ivan